Aí não adianta rezar…

“Quando os deuses permanecem alheios, faça você seus próprios milagres.”

Em 2017, quando estava pensando na campanha de publicidade para meu primeiro romance, Zé Calabros na Terra dos Cornos, criei a frase acima para encapsular um dos temas centrais da narrativa. Ironicamente, ela não consta no livro em si, mas gostei tanto dela que acabei usando-a no segundo livro (a revelar…).

Quando os colegas do Onda Livre me solicitaram um texto para inaugurar a página do grupo, a primeira frase que me veio à mente foi novamente essa. A razão? Porque há, no Onda Livre, o mesmo propósito que almejo pela literatura: queremos desafiar a mentalidade usual brasileira, aquele “jeitinho” que se baseia em trocar favores, lavar mãos e esperar benesses.

Queremos valorizar ideais como a liberdade, a responsabilidade e a iniciativa individual, mas sem o didatismo enfadonho de livros acadêmicos nem a cegueira rígida de ideologias idiotizadas. Objetivamos discutir sem impor visões e mostrar, não apenas pregar, meios diferentes de se encarar as questões humanas.

E é aí que entra a frase que abre este texto. Um dos grandes estorvos do pensamento brasileiro é a dependência de “autoridades” para resolução de nossas mazelas. Não falo aqui dos especialistas, dos cientistas e dos sábios que devem ser consultados diante de problemas complexos, mas dos políticos e burocratas que surgem como “ungidos” de tempos em tempos (em geral, quando o anterior fracassa) para nos prometer a próxima redenção.

Os brasileiros essencialmente se dividem em dois campos: os esperançosos que creem nesses “escolhidos”, e os céticos que se desiludiram tantas vezes que não creem em mais nada. O primeiro grupo vem definindo eleições e apoiando ditadores desde a Proclamação da República, sempre na esperança de que “agora vai”. O segundo, por sua vez, apenas tenta sobreviver diante de uma realidade injusta e (aparentemente) insolucionável na base do “cada um por si”. Ambos os campos, não raramente nem por coincidência, se degradam em pensamentos mais mesquinhos, seja ele o “todo mundo faz” ou o “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Em suma, nossos “deuses” fracassaram. Não precisamos olhar além do “hoje” para entender que, se continuarmos no mesmo caminho, continuarão a fracassar.

E, se os deuses permanecem alheios, nós mesmos devemos fazer nossos milagres.

Precisamos rejeitar as “autoridades” que usam o voto ou o cargo como substituto para sabedoria e honradez. Necessitamos nos opor às burocracias e aos pensamentos que impedem a iniciativa individual. Devemos promover um ambiente em que cada pessoa não apenas constrói seu futuro em paz, mas também valoriza e defende as conquistas de seus concidadãos.

O Onda Livre surgiu quando um grupo de amigos parou de apenas reclamar e decidiu construir um meio de esclarecer as pessoas e combater pensamentos nauseabundos. Podemos contar com sua ajuda nessa jornada? Será uma tarefa árdua e ingrata, um verdadeiro trabalho de formiguinhas, mas, quem sabe, não conseguiremos realizar algum milagre?

A alternativa a não agir é manter as coisas como estão. Aí, meus amigos, não adianta rezar…

Os deuses em seus pedestais
Os deuses em seus pedestais

Tiago Moreira

Contador de histórias, autor de "Zé Calabros na Terra dos Cornos". Valorizo liberdade de expressão, raciocínio lógico, racionalidade, honestidade e ciência.

2 thoughts on “Aí não adianta rezar…

  • 25 de março de 2021 em 23:10
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    Excelente texto, que resume a essência do Movimento Onda Livre. Sim! Já somos muito mais que amigos que se movimentaram para fazer deste um país mais livre, seguro, simples. Somos um Movimento, que de forma corajosa, procura, através do debate franco de ideias, fugir das alternativas “fáceis” e mostrar que podemos, com esforço e persistência, transformar a realidade em que vivemos.

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  • 26 de março de 2021 em 07:53
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    Um texto para lavar a alma! Parabéns.

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