Funeral para a inteligência

Há alguns anos, se me questionassem o que havia de errado com a esquerda, eu responderia que era a ideologia alienada. Eu não conseguia entender como os “esquerdistas”, em busca de ideais vagos de igualdade ou justiça social, rejeitavam as leis de mercado, as boas práticas de governança, o equilíbrio fiscal e tantos outros conhecimentos adotados por nações bem-sucedidas. Ao meu olhar, as ideologias “de esquerda” causavam mal à sociedade ao ignorarem seletivamente as ciências enquanto vestiam máscaras virtuosas de preocupação social.

Acima: O típico sectário ideológico

Porém, a ascensão da direita me fez perceber que esses defeitos não eram exclusivos da esquerda. Estavam ali presentes a mesma soberba, falsa virtude e rejeição seletiva às ciências. Foi, então, que percebi que direita ou esquerda pouco importam. A real tragédia é o sectarismo ideológico.

O que é uma ideologia? É um conjunto de ideias e ideais, amparados no conhecimento intuído, testado, adquirido, adaptado e acumulado ao longo de diferentes gerações.

Diante de um problema, ter uma base de valores e princípios nos permite buscar soluções além de nossas limitadas experiências pessoais, permitindo-nos prever consequências de longo prazo que o pragmatismo ignora. É como estar no ombro de gigantes, com uma perspectiva mais elevada, herdada de homens e mulheres que dedicaram vidas inteiras a compreender a realidade.

Mas doutrina alguma é perfeita. Os sábios do passado não conheceram os problemas do presente. Cada nova geração traz experiências que se agregam e transformam pensamentos anteriores, e nem mesmo aqueles que compartilham a mesma corrente filosófica concordarão totalmente entre si.

Embora possamos nos nortear por ideias, devemos nos lembrar que a realidade sempre se imporá às nossas concepções. Se, no percurso da vida, você encontra um conflito entre expectativa e fato, a melhor prática é questionar suas certezas. Sem pôr suas convicções à prova, você jamais adquirirá sabedoria genuína, estará apenas agindo como um papagaio, que imita palavras sem compreender o que diz.

O sectário não tem tempo para questionamentos, apenas certezas. Para ele, a ideologia deixa de ser um guia prático e se torna uma crença irracional. Suas verdades e princípios lhe parecem inquestionáveis e, quanto menos tiver que pensar, mais ele se convence sua própria pureza moral e intelectual. É a suprema ironia: a irracionalidade gestada pela corrupção da razão.

É daí que surgem os néscios aparvoados da esquerda e os quadrúpedes ruminantes da direita. Quando olhamos essas bestas quadradas de todos os espectros, encontramos os mesmíssimos hábitos: soluções mágicas para problemas complexos, arrogância virtuosa, desprezo pelos diferentes e orgulho de se rotular como “direita”, “esquerda”, “socialista”, “conservador” ou “liberal”.

Tais denominadores não carregam superioridade intrínseca. Há valores muito maiores, como a honestidade, a tolerância ou a humildade, que essas alcunhas nunca substituirão. Pessoas são únicas, jamais se encaixarão em moldes predefinidos.

Quem trata ideologia como modelo de perfeição está, na verdade, confinando sua própria inteligência em um caixão. Não há sina pior do que viver em tal morte insepulta, sem direito nem mesmo a um funeral.

E aí? Vai entregar seu cérebro a eles?

Tiago Moreira

Contador de histórias, autor de "Zé Calabros na Terra dos Cornos". Valorizo liberdade de expressão, raciocínio lógico, racionalidade, honestidade e ciência.

One thought on “Funeral para a inteligência

  • 2 de abril de 2021 em 13:28
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    Muito bom… Bem isso!!

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