Inveja e Destruição

Você certamente já ouviu falar de textos clássicos. Mas o que é um texto clássico? Um texto clássico é aquele texto que “conversa” com o leitor, independente da época em que esteja sendo lido. E mais: um clássico vai “conversar” com o leitor, e ser compreendido por ele de forma diferente, dependendo da fase da vida em que estiver sendo lido.

Neste contexto, Shakespeare é um grande autor de clássicos. Tendo seus textos sido escritos no século XVI, ainda são extremamente atuais.

Freud dizia que um dos grandes diferenciais das tragédias de Shakespeare é que este tirou o destino das personagens das mãos dos deuses, como era praxe para os autores do teatro grego, para colocá-los no seu lugar adequado, ou seja, nas mãos do próprio homem.

“Otelo, o Mouro de Veneza”, é um texto visceral, contemporâneo, que explora um sentimento muito presente no homem: a inveja.

Otelo, o mouro, era o grande general veneziano. É descrito pelo autor como virtuoso, corajoso, honesto, inteligente, forte e generoso. E, por reunir tantas qualidades, obtém um prêmio imenso, o amor de Desdêmona, uma jovem linda, doce e apaixonada, filha da alta nobreza local.

Para seu antagonista, Iago, o personagem central da trama e antagonista de Otelo, o simples fato de que este apenas respirasse já era causa de sofrimento insuportável. Otelo lembrava a Iago o quanto ele se sentia medíocre, ressentido e desesperado, na sua incapacidade de gerar algo, ou ser grandioso.

Iago, personagem pérfido, maquiavélico e sem limites, sentia de Otelo uma inveja devastadora. Porém, a Iago não faltavam capacidades intelectuais. De forma magistral, manipulou outros personagens da estória, para, finalmente, destruir Otelo e tudo aquilo que ele representava.

Dispensável dizer que Iago acabou mal, mesmo tendo atingido seu sombrio objetivo. Ao bem não se combate usando o mal.

Mas o importante aqui é deixar claro o poder destrutivo da inveja. Não por acaso, um dos sete pecados capitais. O quanto o invejoso é incapaz de conviver com as virtudes daquele que é objeto do seu sentimento nefasto. Tanto pior se tais virtudes são materializadas no mundo concreto e material. É necessário destruir o outro, e aquilo que ele concretizou, sem medir consequências ou a quem vai atingir. Seja uma família, ou mesmo uma nação inteira.

Recentemente, o Supremo Tribunal Federal do Brasil anulou, por motivos burocráticos, e não por inocência do réu, sentenças proferidas pelo ex-juiz Sergio Moro no âmbito da Lava Jato, contra Luis Inácio Lula da Silva.

Na semana seguinte, o Ministro da Suprema Corte, Gilmar Mendes, pautou e presidiu sessão onde Moro, por 3 votos a 2, foi considerado parcial ao julgar Lula no processo envolvendo o caso do triplex de Guarujá.

Para quem assistiu a sessão, ou dela teve notícias, ficou muito claro que Shakespeare continua sendo um clássico, e extremamente atual.

Ana Paula Pinho

Mestre e Doutora em Neurociências.

8 thoughts on “Inveja e Destruição

  • 6 de abril de 2021 em 13:09
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    Penso que além da inveja do Ministro, impera o desejo de continuar o estado de coisas que permite os poderosos continuarem delinquindo com a suprema proteção. Triste Brasil com essa corte suprema.

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    • 6 de abril de 2021 em 16:40
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      Olá, Ronaldo! Certamente, impera o desejo e o interesse de “manter as coisas como estão”. Mas, aquilo que senti nas palavras do Ministro Mendes na sessão do julgamento da suspeição de Moro me remeteu imediatamente ao personagem Iago.

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  • 6 de abril de 2021 em 20:35
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    Excelente exemplo foste buscar na literatura clássica,do que ocorre em nosso país. É incrível o que acontece.

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    • 6 de abril de 2021 em 22:59
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      Obrigada, D Penha! Exatamente! Por isso sempre recomendo os clássicos. Eles permanecem atuais, pois falam de sentimentos comuns aos homens, independente da época. E ajudam a compreender a nós mesmos!

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  • 7 de abril de 2021 em 00:24
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    Sensacional o texto e a comparação com as situações atuais

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    • 7 de abril de 2021 em 13:31
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      Obrigada! A ideia era essa!

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  • 7 de abril de 2021 em 07:07
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    Perfeito. Seu resgate literário para subsidiar a análise do comportamento do STF nos faz refletir que o ser humano, independente da posição que ocupa na sociedade, pode ser extremamente destrutivos.

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    • 7 de abril de 2021 em 13:32
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      Exatamente! A ideia era bem essa! Obrigada!

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