Burrice por princípio

Acompanho política pelo Twitter. Seguindo as pessoas certas, é possível ter acesso a ótimas análises e opiniões. Contudo, há também muito chorume que chega a você, mesmo quando se tenta manter uma alta qualidade de informação. Esta semana, chamou-me a atenção as reações à votação da lei sobre participação de entidades privadas na vacinação.

De um lado, muitos defendendo vacinação privada baseados em princípios liberais.

Do outro, um monte criticando com base em princípios igualitaristas.

No fim das contas, pouquíssimos realmente discutindo a lei que foi de fato votada.

Confesso que não me aprofundei nos detalhes para julgá-la. Há certos pontos que acho positivos: temos de incentivar iniciativas independentes por parte de empresas e associações e devemos ter contingências para quando o governo fracassa. Ao mesmo tempo, porém, preocupa-me que a lei permita o uso do Estado para favorecer a aquisição de vacinas pela iniciativa privada e ainda ofereça incentivos fiscais para a prática. É preciso apartar os setores público e privado, para evitar o compadrio entre o poder político e o econômico.

Mas não estou aqui para defender nem condenar a votação. O ponto é outro: é a pressa com que as pessoas, algumas delas bastante influentes, se apegam a ideias superficiais e transmitem julgamentos sumários. A discussão no Brasil é cega e burra por princípio, tenta reduzir um mundo complexo e cinzento em visões pretas-e-brancas. Temos uma postura simplista e negacionista que nos leva a errar mais do que acertar, mas nos sentindo cheios de razão, claro.

Nesse ímpeto de emitir opinião, os nuances acabam esquecidos, as intenções são vilanizadas (ou exaltadas), e as consequências, ignoradas. O demônio, lembremo-nos, reside nos detalhes. Nada nesse mundo é tão simples que não tenha uma mistura de aspectos bons e maus em sua composição.

Quem me dera se essa discussão fosse o único caso desta semana. Não, essa tragédia cognitiva se repete a todo momento pelas redes sociais. De um lado, é gente condenando bilionários como se fossem a causa do empobrecimento da população. Do outro, pessoas defendendo a liberdade de políticos falarem contra a liberdade geral da população. Cada qual acha que está sendo o campeão virtuoso de um mundo melhor.

Seria muito bom tentarmos enxergar os tons da realidade. O mundo é pintado numa infinita gradação entre os extremos. Sem vislumbrarmos os matizes, nos tornamos incapazes de dialogar, analisar, aprender e encontrar soluções possíveis e eficazes.

Precisamos questionar nossos vieses de opinião. Não adianta procurar respostas somente entre aqueles que já concordam com você, é preciso buscar opiniões diversas e tentar entender pontos de vistas diferentes.

E você não precisa se posicionar sobre tudo. A postura de neutralidade é a melhor opção se você tiver que se aprofundar num tema antes de comentá-lo. Também é recomendável dissecar um assunto em partes e avaliar apenas as que sente confiança, salientando, para si e para os outros, as que você não tem conforto para comentar.

Não ter posicionamento imediato é mais virtuoso do que simplificar um assunto a ponto de idiotizá-lo. E lembre-se: ter dúvidas é mais sábio do que ter certezas.

Onde termina o preto e começa o branco?

Tiago Moreira

Contador de histórias, autor de "Zé Calabros na Terra dos Cornos". Valorizo liberdade de expressão, raciocínio lógico, racionalidade, honestidade e ciência.

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