A via não pode ser imposta

A eleição de 2022 pode parecer distante para muitos, mas, com dois populistas autoritários no topo das pesquisas, a busca por uma “terceira via” precisa começar já. Se queremos fugir da polarização entre o horrível e o terrível, as alternativas não podem ser apresentadas no meio do ano eleitoral. Não fomentar essa discussão agora é repetir 2018, quando tivemos vários bons candidatos que apenas enfraqueceram uns aos outros.

Nesses estágios prematuros do processo, porém, o que vejo se manifestar no tal “centro democrático” é uma velha soberba que pode arruinar tudo. É a ideia de “o único capaz”, tão usada pelo bolsonarismo contra o petismo e vice-versa.

Semana passada, vi um partidário de João Dória escrever: “Vai chegar nas vésperas de 22 e o Dória vai ser aclamado por WO”. E, ontem, diante de um resultado pouco notável do pré-candidato numa pesquisa, vi outra: “O eleitor é tão medíocre que, se eleição fosse hoje, o responsável pela vacinação no país estaria empatado com responsável pela sabotagem da vacinação.”

Essa atitude arrogante se repete em apoiadores de todos os potenciais candidatos, seja Amoêdo, Mandetta, Moro ou qualquer outro. Ora, se todos adotarem a mesma postura, qualquer união se torna inviável.

Sejamos francos: cada um de nós tem seu preferido, e eu não sou exceção. Precisamos, contudo, estar cientes de nossos próprios vieses, ou nossas decisões serão maculadas por eles. Se você crê que certa opção é a melhor, precisa convencer os outros, e não esperar que se convençam sozinhos! Ao predefinirmos “o único aceitável” ou “o único possível”, nos cegamos aos defeitos que precisam ser corrigidos, rejeitamos alternativas de antemão , geramos antipatia alheia e tornamos o diálogo mais difícil.

A primeira verdade que precisamos aceitar é: não existe opção orgânica para a “terceira via”! Caso existisse, o nome seria amplamente aceito e já repercutiria como um dos favoritos. Uma vez que nos damos de não haver herdeiro natural para os votos de centro, a segunda verdade se desvela: o caminho não pode ser imposto! Se queremos, de fato, combater autocratas, devemos abraçar os discordantes e dar voz a todos os concorrentes.

O que devemos fazer neste estágio, então? A alternativa saudável, é claro: competição! Esta é a hora de termos muitas opções! Precisamos de debates, pesquisas de intenção, palestras, artigos em jornais, aparições na televisão e tudo o que for possível fazer dentro da lei eleitoral. Não importa se agora há cinco, dez ou quinhentos pré-candidatos. Temos tempo, não estamos limitados por parcos três meses de campanha oficial. Alguns nomes crescerão, outros se aliarão e muitos desistirão, até que, por volta de julho de 2022, restem poucos candidatos.

Portanto, ao invés de escolhermos “ungidos” e cairmos na velha falácia de “o único viável”, façamos o oposto: abracemos todas as opções! Busquemos as qualidades e nos atentemos aos defeitos delas! Elogiemos os acertos e critiquemos os erros no percurso! Façamos da disputa uma grande celebração democrática, com eventos, confrontos e torcidas! Incentivemos a participação de todos os brasileiros nesse campeonato! E torçamos que vença o melhor!

Só assim podemos transformar a terceira via na primeira opção.

Tiago Moreira

Contador de histórias, autor de "Zé Calabros na Terra dos Cornos". Valorizo liberdade de expressão, raciocínio lógico, racionalidade, honestidade e ciência.

4 thoughts on “A via não pode ser imposta

  • 15 de abril de 2021 em 19:23
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    Excelente texto Tiago, ontem estava com essas dúvidas e tbm comentei sobre isso e para mim a terceira via seria imposta por nós com um nome só ao contrário do que vc disse, mas seu texto abriu uma chave aqui .. será melhor todos aparecerem nas redes já que temos no topo ao menos um que foge dos debates ?! Como ficará p o Jair hein?!

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    • 15 de abril de 2021 em 19:49
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      Sim, temos que tratar essa pré-seleção como uma eleição em si. Os candidatos devem fazer debates, irem à televisão, se manifestar de todas as maneiras possíveis. Se fizermos disso um espetáculo, como as prévias da eleição americana, podemos tirar muitos votos dos extremos.

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  • 16 de abril de 2021 em 11:36
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    Excelente artigo, Tiago! Está difícil fazermos as pessoas entenderem que o seu “ungido” talvez não seja o candidato para 2022. Mas talvez possamos escolher agora “um bom candidato”, talvez não aquele para o qual estamos torcendo, mas ainda assim um bom candidato, que faça um “feijão com arroz bem feitinho”, para não acabar como em 2018, tendo que escolher entre o ruim e o pior.

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