Do Bolsa Familia ao Whatsapp

Em meados de 2020, quando o número de vítimas da Covid mostrava uma tendencia de queda e estávamos bem distantes do verdadeiro inferno atual com recordes sequenciais diários, o auxílio emergencial organizado pelo governo federal caia na conta de dezenas de milhões de brasileiros e fazia com que a aprovação do Presidente Bolsonaro crescesse semana após semana, li numa rede social uma frase que me chamou a atenção.

“O brasileiro não é esquerdista nem direitista, ele é bolsista.”

Desde a época dos governos petistas de Lula e Dilma era visível a influência que a distribuição de renda via programas sociais (ideia liberal, mas esse é um tema para outro texto) possui sobre a popularidade do governante federal do momento. Inclusive, é sempre bom lembrar que o candidato Bolsonaro cansou de criticar o Bolsa Família e chamá-lo de “compra de votos”, ao passo que o presidente Bolsonaro agora defende a ampliação do programa, visando aumentar sua popularidade.
Sendo assim, não é espantoso observar que o índice de popularidade de Bolsonaro varia conforme a distribuição de renda via programas de auxílio, assim como ocorria com seus antecessores. Tampouco é algo a ser condenado. Quem não necessita desse tipo de programa para sobreviver, ainda mais na época terrível em que estamos, não sabe o que é estar na pele das camadas mais pobres, o que torna bastante complicado “julgar” a pessoa que escolha dar seu voto para quem cria ou amplia um programa de distribuição de renda.

Mas espantoso mesmo no Brasil atual é a defesa ampla, irrestrita e apaixonada de Bolsonaro realizada pelas pessoas de faixa etária mais avançada. E não falo apenas da elite, aqueles brasileiros das classes A e B que participam de carreatas de apoio ao “Mito” dentro dos seus Audis, Mercedes ou BMWs, muitas vezes fazendo buzinaço na porta de hospitais.
Todos nós temos um ou mais parentes mais velhos que chamamos de “tios do zap”, por postarem diariamente um festival de fake news nos grupos da família, fazendo você se arrepender de um dia ter reclamado daquela prima distante que envia gifs de “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” de domingo a domingo.
Teoricamente, as pessoas mais vividas, mais experientes, que passaram décadas sendo governadas por políticos corruptos, populistas, golpistas e até ditadores deveriam ser as mais difíceis de ser enganadas ou, melhor falando, “encantadas” por meio de promessas vazias e um festival de mentiras. Mas estamos vendo exatamente o contrário disso.
Por quê? Creio que seja difícil chegar a apenas uma resposta definitiva e simplificada.

Muitos são saudosos da época da ditadura militar – quem nunca ouviu a famosa “na época dos militares é que era bom” saindo da boca de um familiar – e conseguem enxergar de alguma forma nesse governo recheado de membros do exército alguma semelhança com o regime que vigorou de 1964 a 1985. Outros parecem conseguir viver apenas com a condição de admirar cegamente um populista, haja vista que existem muitos bolsonaristas fanáticos que até pouco tempo atrás eram lulistas com o mesmo grau de sentimento. Tem também a turma que enxerga traços de comunismo e socialismo em tudo que não lhe agrada, ainda com aquele pensamento que vigorou na década de 60.

Enfim, são variadas opções que poderiam servir como explicação para essa pergunta.

O grande problema dessa situação é que ela parece ser mais grave do que víamos na época petista, simplesmente porque defender a indefensável e inexistente inocência de Lula era uma discussão de cunho jurídico e político, já a defesa das atitudes e discursos do presidente Bolsonaro estão dentro de um escopo de saúde e sobrevivência no meio de uma pandemia mundial. Ou seja, gritar “Lula Livre” não envolve risco de morte, te transformando “apenas” em defensor de um corrupto condenado em 3 instâncias. Já a defesa apaixonada da atuação de Bolsonaro influencia diretamente em questões de saúde pública. Quem usa desse artificio para defender medicamentos sem eficácia contra Covid e se vira contra medidas de isolamento e proteção, isso sem falar na campanha anti vacina, coloca a sua sobrevivência, e também a sobrevivência de terceiros em risco altíssimo. É algo maior e muito, muito mais perigoso.

Isso tudo aumenta a responsabilidade de todos nós.

A responsabilidade de combater fake news e pensamentos e ideias que possam colocar a nossa saúde e a saúde de quem amamos em risco. Precisamos de um esforço, temperado com várias pitadas de paciência, para mitigarmos ao máximo o estrago que esse modo de ação utilizado pela máquina bolsonarista possa causar a nossa sociedade. E devemos começar praticando isso dentro do nosso seio familiar, com os mais próximos, não com o objetivo de criar confusão e discussões acaloradas, mas sim com a preocupação de salvar vidas. É divulgar informações corretas, desmentir fake news, incentivar o respeito a medidas de vigilância sanitária e a vacinação. É demonstrar respeito pela ciência e, também pelo próximo e por nós mesmos.

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