Os remotamente impactados e a indiferença

Durante a Segunda Guerra Mundial, Londres foi implacavelmente bombardeada pela Luftwaffle, a força aérea da Alemanha nazista. Foram 8 meses, entre 1940 e 1941, em que a capital inglesa foi atingida por dezenas de milhares de bombas explosivas e mais de 1 milhão de dispositivos incendiários. Ao final, contabilizaram-se 40 mil mortos e 46 mil feridos. Centenas de milhares de prédios foram total ou parcialmente destruídos. Mesmo com este cenário caótico, os londrinos nunca apresentaram, sequer vagamente, um comportamento que pudesse ser considerado de pânico. Na realidade, a percepção era de que a população estava indiferente ao que vinha acontecendo.

Psicólogos resolveram investigar as reações dos moradores ao que ocorria e identificaram, em relação ao impacto dos bombardeios, três grupos de pessoas: aquelas que foram diretamente impactadas e morreram; as que foram quase impactadas, sofreram alguma perda, mas conseguiram seguir com a vida; e aquelas que foram remotamente impactadas. Neste último grupo estão aqueles que até podem ter ouvido o som dos bombardeiros sobrevoando a cidade e das bombas caindo nas redondezas, mas não sofreram nenhuma consequência ou perda direta.

Na época, Londres possuía cerca de 8 milhões de habitantes em sua região metropolitana e os cerca de 86 mil que foram de alguma atingidos representavam pouco mais 1% da população. As pessoas no grupo dos remotamente impactados conservavam um sentimento de otimismo, autoconfiança e, muitas delas, até mesmo de invulnerabilidade. Mesmo que algumas pessoas se sentissem invulneráveis, muitas outras recorriam aos abrigos subterrâneos durante os bombardeios. O governo também fazia a sua parte com um inovador sistema de radares costeiros, as baterias antiaéreas, os caças da RAF (Royal Air Force) e o sistema de sirenes que avisavam da chegada do inimigo.

No período dos bombardeios alemães sobre Londres, cabia aos remotamente impactados a responsabilidade de fazer a cidade continuar a ter vida, além de dar suporte aos quase impactados e aos familiares dos diretamente impactados. O otimismo e a autoconfiança faziam total sentido e gerava um sentimento positivo, que dava forças aos londrinos para suportar o período de sofrimento.

Avancemos 80 anos até 2020/2021 e nos deparamos no Brasil com o cenário da pandemia de COVID-19 de quase 400 mil mortes e 14 milhões de casos, com cerca 12 milhões já recuperados. Como a população do Brasil é estimada em 213 milhões de pessoas, as mortes ocasionadas pela COVID representam menos de 0,2% da população do país. Num paralelo com a Londres da Segunda Guerra, os mortos pela pandemia são os diretamente impactados. Os 12 milhões de recuperados são os quase impactados. E o restante da população, 200 milhões de pessoas, são os remotamente impactados.

Assim como na Londres da Segunda Guerra, o papel dos remotamente impactados durante a pandemia é absolutamente decisivo para superamos esse período de agruras. A responsabilidade de proteger a si próprios e cuidar daqueles que já foram de alguma forma impactados é enorme.

Diferentemente dos londrinos, os brasileiros não podem se sentir autoconfiantes e muito menos adotar uma atitude de invulnerabilidade. Assim como não se poderia prever onde a próxima bomba cairia, não temos nenhuma condição de prever se seremos ou não contaminados e, em sendo, qual o impacto que a COVID-19 terá sobre a nossa saúde.

Os londrinos conscientes do risco dos bombardeios recorriam aos abrigos subterrâneos e contavam com um governo que se importava com a seu povo e teve líderes fazendo de tudo para reduzir os danos. Já nós, brasileiros, temos que contar com a responsabilidade individual, a prudência, o distanciamento social, o uso de máscaras.

Como se não fosse pouca a tragédia, o governo pouco tem feito para proteger a população: as lideranças são incompetentes e irresponsáveis, não são realizadas testagens preventivas, a comunicação é sabotadora e orienta incorretamente, foram adquiridos medicamentos ineficazes, não foi providenciada a infraestrutura de apoio e suporte e, suprema inépcia, atrasou-se a compra da principal defesa contra o vírus, as vacinas.

O Brasil na guerra contra a COVID é como se a Inglaterra estivesse enfrentando os bombardeiros e caças nazistas sem radares, sem sirenes, sem força área, sem abrigo antibombas, sem liderança.

Cair uma bomba sobre qualquer casa era loteria na época; ser contaminado pelo COVID-19 e ter um quadro agravado que leva à morte é loteria agora. Não podemos achar que somos imunes ao vírus e que adoecimento e mortes acontecerão apenas com os outros. Não há espaço para indiferença.

Miguel Gustavo Freitas

Miguel Gustavo Freitas

Administrador, consultor em gestão de pessoas, psicólogo em desenvolvimento, liberal com traços libertários.

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