Onde Vivem os Monstros

O assunto é difícil e duro. Mas não há como fugir da realidade que nos cerca. Em menos de 15 dias, duas crianças foram mortas, vítimas daqueles que os deviam estar protegendo e amando. Henry Borel de 4 anos, morto pelo padrasto, um médico e político carioca, “Dr Jairinho”, e Ketelen Oliveira Rocha, vítima de Gilmara de Farias, companheira da mãe. Em ambos os casos, investiga-se a participação, ou, ao menos, a conivência das mães.

Os casos são tão distintos em todos os sentidos, que dificilmente se pode por a culpa em cultura, educação, interesse financeiro ou mesmo nível sócio-econômico.

Para quem tiver interesse e estômago, é possível assistir no serviço de transmissões online, Netflix, o documentário “O caso Gabriel Fernandez” que detalha e disseca a escalada de violência doméstica que culmina com a morte do menino em seu próprio lar. O caso Leandro Boldrin, ocorrido no interior do Rio Grande do Sul e muito comentado Brasil afora,  demonstra que a maldade dentro de certos lares, desconhece limites, e a cegueira das autoridades competentes e pessoas que talvez pudessem ter agido para evitar tão terríveis desfechos desconhece fronteiras.

A despeito do horror causado por tais casos, preocupa-me sobremaneira os muitos outros casos de maus-tratos a crianças que devem ocorrer diariamente,  e que estão invisíveis, protegidos pela cortina de fumaça que é a nossa própria negação, e que nunca saberemos realmente como se desenrolam, pois a imensa maioria não termina da forma como terminaram os casos de Henry e Ketelen.

No início dos anos 1980, a neurociência não prestava muita atenção aos danos duradouros produzidos por um trauma psicológico. Menos ainda em como um trauma psicológico era capaz de prejudicar as crianças. Acreditava-se que elas eram “resilientes”, e possuíam capacidade inata de se recuperar.

A partir dos primeiros conceitos de “transtorno de estresse pós-traumático”, ainda na década de 80, começaram também estudos em laboratório, com animais, mostrando que, nos filhotes, pequenas pressões psicológicas eram capazes de alterar o cérebro, causando impacto determinante na sua arquitetura, química e desenvolvimento. Como consequência, ocorriam alterações, às vezes irreversíveis, no seu comportamento.

Hoje se sabe que a vida no caos do abandono e/ou da violência podem produzir crianças e futuros adultos severamente perturbados.

Simplificadamente, o que muito pode determinar como uma criança sobrevive a um trauma físico, emocional ou psicológico é, se as pessoas que a cercam, em particular os adultos em quem elas confiam e com os quais contam, permanecerem ao lado delas para amá-las, apoiá-las e incentivá-las.

Finalizando, lembro que os relacionamentos humanos podem criar ou destruir, alimentar ou aterrorizar, traumatizar ou curar. Temos imensa responsabilidade para com todos os indefesos. Mas aqui destaco as crianças, cujo processo de desenvolvimento depende, em grande parte, da forma como são tratados e recebem estímulos ao longo das diversas etapas de seu desenvolvimento neuropsicomotor. Fundamentais para termos uma sociedade com adultos saudáveis e produtivos.

Ana Paula Pinho

Mestre e Doutora em Neurociências.

One thought on “Onde Vivem os Monstros

  • 10 de maio de 2021 em 21:44
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    Vi hoje o caso da mãe que matou o filho de 3 anos.. triste demais .. temos que proteger nossas crianças

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