Saia da sua bolha

Até bem pouco tempo, os programas de computador eram baseados numa sequência linear de instruções com valores fixos que não se retroalimentavam e nem permitiam processamento simultâneo. Havia, de certa forma, previsibilidade no resultado das operações, pois a lógica nunca mudava. A partir do fim dos anos 1990, uma nova forma de processamento computacional começou a tomar corpo em novas empresas de tecnologia, quando foram criadas e desenvolvidas as primeiras Redes Neuronais Artificiais (RNA), com o objetivo de simular o funcionamento do cérebro humano, suas as interações neuronais e propiciar algum tipo de aprendizado autônomo, a Inteligência Artificial (AI, na sigla em inglês).

No livro Sobre Ter Certeza, o neurologista Robert Burton explica que, diferentemente dos programas de instruções sequenciais, as “RNA não se baseiam em nenhum valor específico. Os programadores só fornecem as equações; é a informação entrante que determina como as conexões serão formadas e qual será a força de cada uma com relação a todas as outras conexões. Não há solução previsível para um problema – em vez disso, quando uma conexão muda, todas as outras mudam também. Estas relações mutantes são a base para o aprendizado.”

É este modelo de processamento que está no coração do negócio de Facebook, Instagram, Twitter, Amazon, Netflix, para ficar nas mais óbvias. No livro, Burton explica como esse processo da RNAs é aplicado na recomendação de livros na Amazon:

“Na primeira vez que você faz login na Amazon não há recomendações. A RNA não tem ideia das suas preferências. Embora as equações estejam lá, elas são inúteis sem as suas entradas. Então você começa a navegar no site. Cada clique em um livro fornece informações ao banco de dados da RNA. Gradualmente, vai se desenvolvendo um padrão; os livros vão sendo classificados uns em relação aos outros, dependendo da sua ação: se você clicou no livro, leu um capítulo de amostra ou comprou. Obviamente, para a Amazon, uma compra terá um peso maior (…).”

A partir das suas ações, a RNA as compara, analisa e faz ponderações com as ações de outros clientes que clicaram, leram ou compraram os mesmos livros. Quanto mais você interagir no ambiente virtual mais a RNA vai depurar as recomendações, ou seja, fortalecer as conexões, aprimorar os filtros, gerando maior propensão que você encontre livros que estejam dentro do gênero literário que você aprecia. A isso dá-se o nome de modelos preditivos. Estes modelos serão tão acurados quanto mais interações você fizer.

Nas redes sociais a dinâmica é igual. A diferença é que você não interage com livros, mas com pessoas. E estas pessoas possuem valores, ideias, princípios, crenças que podem ou não ser interessantes para você ou convergir para o que você acredita.

Obviamente, a tendência natural é buscarmos pelo que seja congruente com as nossas crenças. Assim como os filtros da Amazon fazem com que você passe a encontrar apenas livros que podem lhe interessar, as interações nas redes sociais criam filtros que passam a validar apenas a sua própria forma de pensar. Entramos num túnel que vai nos levar para o viés de confirmação. O senso comum nos faz crer que nossas opiniões são baseadas apenas em análise racional e objetiva, porém a verdade é que quase tudo que acreditamos é resultado de anos em que prestamos atenção a informações que confirmavam o que acreditamos e, deliberadamente, ignoramos tudo aquilo que contradizia nossos pré-conceitos.

Gostamos de ouvir o que já sabemos e ficamos desconfortáveis quando temos acesso a algo que nos contraria. As redes sociais potencializam esse efeito. Sua timeline é inundada de conteúdos que são reflexos das suas escolhas anteriores. E quanto mais estreito fica o universo de escolhas relativamente a pessoas e temas com os quais interage, mais limitada e binária tende a ficar a sua visão do mundo.

A realidade estará sempre nos extremos: tudo que eu acredito e valorizo é bom, certo, virtuoso; tudo aquilo que me contradiz é mal, errado, imoral. Não tem meio termo, não existe centro, não há possibilidade de consenso.



Uma consequência perigosa nesse processamento binário do mundo é que passamos a acreditar em praticamente tudo que vem “do nosso lado”. Se a fonte é conhecida e, na minha (estreita) visão, confiável, seja lá o que vier dela será verdade. E isso dá margem ao viés da ação: não perdemos tempo para refletir e agimos imediatamente. Em termos evolutivos, “somos todos descendentes de seres humanos que reagiram rápido”, com escreveu David Macraney no livro Você não é tão esperto quanto pensa. Um ancestral distante nas savanas africanas não podia se dar ao luxo de esperar para ver se um vulto que parecia com um leão era ou não um leão. Correr (agir) era a diferença entre conseguir ou não transmitir seus genes para uma nova geração.

Porém, no nosso mundo atual, vale mais a pena a reflexão do que a ação impensada. As fake news tem sua propagação facilitada em função desta nossa inabilidade em nos contermos. Macraney reforça: “tendemos a agir rápido demais e com muita frequência, quando o desejável seria não fazer nada até conseguir avaliar melhor o quadro”. Na ânsia de agir, as pessoas estão deixando de exercitar o pensamento crítico.

A tecnologia em si não é um problema. Negócios e soluções fantásticas foram viabilizadas com o desenvolvimento das RNA. A tecnologia vai continuar se aprimorando e isso é irreversível. O problema é o uso irrefletido da tecnologia, em especial das redes sociais. Adote como hábito descartar suposições automáticas baseadas nas suas experiências passadas.

Para isso, saia da sua bolha: busque conteúdos de diferentes fontes, inclusive daquelas que são claramente contrárias ao que você acredita. Desenvolva o pensamento crítico e analise outras alternativas. É ótimo estar sempre certo, mas, às vezes, ficaremos melhor se admitirmos que estamos errados.

Miguel Gustavo Freitas

Miguel Gustavo Freitas

Administrador, consultor em gestão de pessoas, psicólogo em desenvolvimento, liberal com traços libertários.

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