07 de Setembro: O grito de Existência

As expectativas em relação às manifestações programadas para o dia 07 de setembro deste ano em apoio ao atual governo federal geram questionamentos que vão muito além do impacto da manifestação em si. Dentre estes, destaco a necessidade de analisar quem são os brasileiros que se fantasiarão de verde e amarelo na próxima terça e porque se sujeitam a apoiar um governo decrépito, tacanho e obsoleto.

Para nos debruçarmos sobre dados que elucidem estes questionamentos, uma necessidade óbvia e preliminar é a análise observacional das postagens espontâneas em redes sociais relacionadas ao tema. A partir daí, uma das primeiras coisas que se nota é a participação massiva de pessoas acima dos 50 anos de idade. Sim, este é um fato distinto em manifestações políticas brasileiras após o período de redemocratização. Os jovens que sempre encamparam os movimentos sociais de rua como as Diretas Já, o Impeachment do Collor ou as manifestações de junho de 2013, hoje não representam mais o grupo majoritário que ocupará as ruas brasileiras. Os primeiros sinais da mudança etária já puderam ser percebidos pelos olhares atentos nas manifestações contra o governo Dilma, mas desde a vitória de Bolsonaro não resta mais dúvidas: agora são vovôs e vovós ruidosos que clamam pela tomada das ruas, que entoam gritos de guerra e se entusiasmam por ocupar as praças de diversas capitais pelo país. Bom, se isto é um fato, resta-nos tentar entender o porquê…

Toda e qualquer manifestação ocorre por meio de minorias organizadas que conseguem canalizar demandas e, principalmente, desejos em comum que justifiquem a união de determinadas pessoas em um propósito compartilhado. Há uma necessidade humana, como seres sociais que somos, de pertencermos a determinado grupo. Desta maneira, construímos nossa própria identidade e conseguimos determinar os contornos de nossa existência no Mundo. Nos organizamos em grupos nacionais, linguísticos, religiosos, políticos, esportivos, profissionais e, naturalmente, em grupos geracionais. Sim, também nos identificamos por meio da geração em que nascemos, pelo compartilhamento de vivências em comum como testemunhas oculares da própria história, pelas músicas de nosso tempo, pelos movimentos e estilos musicais, pelos atletas e suas carreiras, pelos artistas contemporâneos a nossa trajetória de vida, pelas catástrofes que testemunhamos entre tantas outras coisas. Realço este aspecto geracional pois nele enxergo o elo entre aqueles homens grisalhos, calvos e mulheres de loiro tingido que se identificam com roupas verde e amarelas e lançam pelas redes sociais vídeos animados conclamando a participação nas manifestações em dizeres vagos e muitas vezes contraditórios em si mesmos.

Estes senhores e senhoras estão passando uma mensagem que vai muito além da inconformidade com STF ou ao apoio a um presidente boçal. Observo nestes idosos um grito latente pelo direito de… existir. Sim, meu caro leitor, essa é uma geração que busca desesperadamente enxergar indícios materiais que sua vida não foi em vão. Que seu legado ao Mundo existe e existirá, que se assusta com a percepção da finitude e a obsolência natural que a vida impinge aos mais velhos. E aqui não está nenhuma crítica específica a geração boomer, mas apenas uma constatação da lei natural da vida: as coisas passam e a vida renasce pelas coisas novas. Essas pessoas estão desesperadamente pedindo à vida garantias e reafirmações de sua própria existência, precisam fiar-se a algo que enxerguem como positivo de seu passado saudosista, nem que seja o elo sentimental de ter vivido a juventude dentro de uma sociedade controlada por uma ditadura, em tempos onde a ciência ainda não havia dado o salto de compartilhamento de informações e quando ainda não era tão simples ter acesso a dados e desconstruir falácias e teorias conspiratórias.

O mais curioso é que pouco importa se na época achassem uma droga aquele sistema ditatorial, fumassem maconha, lutassem pelo uso de pílula anticoncepcional, pelo sexo livre e curtissem o som rebelde sem causa da jovem guarda. Hoje são estes mesmos vovôs e vovós que se assustam com os rumos da atual juventude, do aumento do número de experiências homossexuais entre os jovens, do conteúdo das artes e arrotam um moralismo sem pé nem cabeça que nunca defenderam em vida. Se hoje ficam escandalizados com Pablo Vittar, dançavam felizes ao som de Ney Matogrosso. Estamos presenciando a celebração de sexagenários pelo dia de sua existência. O Brasil está envelhecendo rapidamente e a participação na sociedade dos idosos no caldo social será cada vez maior. Se não nos atentarmos a isso e incluirmos estas pessoas no processo de participação social, não apenas em garantias econômicas com suas respectivas aposentadorias, mas como indivíduos pertencentes ao novo Mundo que surge, continuaremos a viver um cabo de guerra geracional com o consequente atraso no desenvolvimento humano e social brasileiro. A Inglaterra sentiu isso na pele com a experiência do BREXIT, resta saber se viveremos uma nova “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade” por não compreendermos os medos e angústias de nossos idosos.

A imagem representativa do futuro e da esperança no Brasil não é mais a de uma criança com a bandeira brasileira pintada em seu rosto, mas sim senhores e senhoras com rugas escondidas em maquiagem ou procedimentos estéticos com suas caras e seus sorrisos amarelos.

O Mundo nunca esteve tão melhor do que hoje, precisamos mostrar que isso também se deveu ao trabalho e vida de nossos idosos para que sintam-se pertencentes, também, ao futuro.

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