O crepúsculo liberal

Hoje é 01 de Outubro de 2021. Em 03 de Outubro de 2018, há quase três anos, estávamos na semana anterior ao primeiro turno das eleições, quando escrevi um artigo chamado “Um país vendendo a alma ao diabo”, prevendo a vitória de Bolsonaro no segundo turno. Ali, eu desabafava sobre a desesperança com o futuro. Também foi ali que escrevi algo que me pesa na mente até hoje:

“É compreensível que as massas ajam por instinto. O mais desalentador dessa situação, contudo, é que intelectuais e influenciadores também estão se lançando nessa loucura. Quando nossos formadores de opinião, aqueles que deveriam estar instruindo as massas, são os primeiros a descartarem princípios e razão, o que esperar do futuro desse país?”

Como liberal, era desesperador ver os liberais brasileiros, como movimento, apoiarem, ainda no primeiro turno, Jair Bolsonaro, alguém tão obviamente contrário às suas ideias e valores. Amparavam-se, como o próprio Bolsonaro, no liberal-muleta Paulo Guedes como fiador de qualidade do governo. Passadas as eleições, houve até colunista declarando que chegaram ao poder, apenas para ser imediatamente humilhado por um dos filhos do novo presidente.

De lá para cá, testemunhamos um governo atroz. Irresponsável na economia, incendiário na institucionalidade, orgulhoso da própria ignorância, focado em reeleição, tolerante à corrupção, desdenhoso das virtudes e cruel com vidas humanas. A pandemia de COVID-19 escancarou uma face praticamente nazista da administração, que se empenhou em campanhas de desinformação e experimentos mengelianos para negar a gravidade de catástrofe que ceifaria 600 mil brasileiros.

E onde estavam os liberais neste período sombrio? Na sombra do governo. Alguns, participando ativamente. Outros, tecendo elogios imerecidos a medidas imaginárias e se negando a enxergar qualquer crise ou crime de origem presidencial. Não falo de uma ou outra figura desgarrada, falo de líderes de movimentos, presidentes de institutos, deputados federais, colunistas e influenciadores.

Na pandemia, lá estavam eles. Promoviam uma empresa de saúde que promoveu estudos fraudulentos que atentam à ética médica e científica. Espalhavam desinformação, ecoando o presidente. Incentivavam a automedicação e defendiam a insurgência popular contra isolamento e uso de máscaras. Repetiam a importância da economia, como se esta fosse uma entidade independente de vidas humanas. Ou ficavam calados, absolutamente calados, de olhos fechados às óbvias atrocidades. “Não vejo motivos para impeachment”, diziam quando já contávamos 200 mil mortos.

O desastre não se resumiu à pandemia. Sob elogios de liberais, o ministro do meio-ambiente, ele mesmo um membro do movimento, aparelhou o IBAMA, perseguiu quadros técnicos, destruiu o Fundo Amazônia, pediu a cabeça do diretor do INPE, acusou falsamente o Greenpeace e se envolveu num escândalo internacional de comércio de madeira ilegal. Quando o Partido Novo o expulsou, as críticas dos liberais se direcionaram ao partido, nunca a ele.

Irresponsabilidade fiscal, inflação, dólar alto, manipulação de juros, alianças com o Centrão, fim da Lava Jato, demissão de Sérgio Moro, crises institucionais, ataques à imprensa, foco em reeleição: nada fez os liberais se destoarem do governo. No máximo, calavam-se incomodados, esperando a tempestade passar para retomarem o apoio tácito. “O presidente fala muita besteira”, resumiam, enquanto aqui e acolá o chamavam de “patriota” e “honesto”.

E, mesmo hoje, após mil dias de mandato, diante do fracasso evidente, não há um mea culpa ou um arremedo de oposição, nem mudança de discurso. Pelo contrário, lá estão eles elogiando um empresário governista que sacrificou a própria mãe, enquanto condenam os que apontam seus crimes.

Como liberal, sinto vergonha e asco por esse liberalismo moribundo, que fala de princípios, mas os vende baratinho para estar perto do poder. Tornei-me liberal pela sensatez que vi nas ideias, pelo modo que ressoavam com minha própria visão da realidade. Porém, pauto meu liberalismo como submisso a ética e valores. Esses sujeitos, em contrapartida, se mostraram exatamente o que a esquerda dizia que seriam: insensíveis, cruéis, oportunistas, covardes.

Eu gostaria de terminar o texto com o repúdio acima, mas não para por aí. Os erros do movimento liberal-libertário brasileiro não são resultado de simples cegueira ideológica ou afinidade com o reacionarismo bolsonarista, mas sim de cálculo político. Um certo deputado federal, que nunca viu motivos para impeachment de Bolsonaro, até disse em suas redes sociais: “Aos ‘encastelados’ que ainda não entenderam o que aconteceu em 2018, ainda há tempo para que não repitam os erros de leitura de cenário e, consequentemente, os erros de posicionamento e estratégia em 2022”.

Sim, é estratégia. A omissão e a conivência são “úteis”, porque o que lhes importa é crescer, às sombras do bolsonarismo, na esperança de saquear o espólio e tomar o trono. 600 mil mortes? Não importam. Inflação de 10%? Gasolina a R$ 7,00? Centrão fortalecido? Pequenos detalhes, sem importância. A estratégia está acima de tudo. Os “encastelados” a quem o deputado anterior criticava nada mais eram que os liberais que, por princípios e coerência, não desejam se calar e, portanto, ameaçam os planos.

Olhemos para a situação do Partido Novo, um partido nascido liberal, mas também bastante idealista. À revelia dos próprios mandatários eleitos, declarou-se de oposição e promoveu protestos contra o governo. Não é perfeito, mas tem diferenciais importantes, como a separação de políticos e direção partidária, e princípios pautados na ética e na coerência, não apenas no liberalismo míope e tacanho tupiniquim. E é exatamente isso que os liberais (e libertários, friso) desse movimento contemporâneo tentam subverter.

O primeiro objetivo deles é colocar a direção partidária sob influência de políticos. Já declararam, inclusive, o desejo de mudar todo o Diretório Nacional e o Conselho de Ética Partidária. Nisso, quebram o sistema de freios e contrapesos que limita o poder de políticos no partido.

Também passariam a controlar o conselho de ética, dificultando punições aos seus. É exatamente o que quer gente como Ricardo Salles (o ex-ministro do meio-ambiente), Roberto Motta (que queria Bolsonaro candidato pelo partido), Alexandre Freitas e assemelhados, todos lamentados pelo movimento liberal. Se o movimento liberal sequer tem coragem de criticar os seus, seria esse Conselho de Ética capaz de policiar alguém?

O segundo objetivo desses liberais é a expansão rápida do partido. Querem facilitar a criação de diretórios e atrair filiados, sem qualidade. Ora, com o partido sendo restritivo como é, já houve tentativas de subverter seu crescimento. De fontes internas, soube de cidades em que empresários “contratavam filiados”, pagando suas mensalidades, para terem controle de diretórios municipais.

Esses objetivos demonstram cabalmente a falta de compromisso com ética e regras. O estatuto e os princípios do Novo são claros e rígidos, e cada filiado os subscreve ao se filiar. O movimento liberal-libertário provocou um racha no partido. De um lado, legalistas, representados principalmente por João Amoêdo. Do outro, dissidentes galvanizados por mandatários. Ambos os grupos aceitaram as regras ao entrarem, mas aqueles buscam preservar a visão original do partido, estes, deturpá-la com objetivos imediatistas.

O movimento fracassará, disso não tenho dúvida. A única forma de mudar a política é pela ética, e estamos vendo um grupo difuso que, buscando crescimento rápido e sem freios, põe ideologia e poder acima dela. Muita gente o apoia por ingenuidade, mas uns têm noção muito clara do que estão fazendo, seja por apreço ao poder ou por acreditar naquela ética de conveniência em que “o importante é chegar lá, depois consertamos”.

Jamais consertarão. Quando alcançarem o poder, estarão irreconhecíveis. Alguns ainda terão um resquício de ingenuidade, mas defenderão os colegas por corporativismo e ideologia. E uns poucos se darão conta do monstro que criaram, mas serão enxotados como párias.

O movimento se autoengana acreditando que basta ter poder, e porá em prática tudo o que acreditam. Respeito a acordos? Ética? Coerência? Atenção às necessidades imediatas da população? Todos são empecilhos para o projeto. O poder primeiro, depois salvam o Brasil.

Soam como socialistas? Pois é, é isso que ideologia demais faz com a sua cabeça. Não importa se pela “igualdade” ou “liberdade”, a busca pelo poder te faz refém dele. Quando chegam lá, ideologias opostas já não são muito diferentes.

Quando você chega no topo da montanha, só tem o que levou consigo. O que abandonou no caminho, fica lá embaixo. Um movimento que começa assim, jogando a ética e os acordos de lado, está fadado ao fracasso. Talvez até alcance o topo, talvez tome um partido, o Novo ou outro, para si. Porém, o idealismo de outrora será uma sombra disforme e alquebrada, submissa aos interesses do momento. A manutenção do poder suprimirá qualquer outro ímpeto: fazer o certo, agora? Não, concentremos na próxima eleição.

O liberalismo no Brasil está em seu crepúsculo. Fenece antes mesmo de alcançar seu auge. Todos os liberais precisam entender a encruzilhada em que se encontram: podemos nos abrigar e aguardar o próximo amanhecer, ou seguir nesse caminho noite adentro, rumo ao fracasso. Nas palavras de Dylan Thomas, urjo:

Não se vá manso naquela noite pacata.
Erga-se, erga-se contra a luz que se apaga.

Tiago Moreira

Contador de histórias, autor de "Zé Calabros na Terra dos Cornos". Valorizo liberdade de expressão, raciocínio lógico, racionalidade, honestidade e ciência.

6 thoughts on “O crepúsculo liberal

  • 1 de outubro de 2021 em 12:38
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    Parabéns, Tiago, por mais este texto de excelência na análise crítica do liberalismo brasileiro.
    Leitura fundamental e indispensável.

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  • 1 de outubro de 2021 em 20:58
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    Tiago, admirei demais este texto. Exprime exatamente o que penso mas sou incapaz de colocar em palavras. Sou fanático pelo raciocínio lógico, a honestidade de pensamento, a ausência de maniqueismo e a eterna busca pela razão.

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  • 3 de outubro de 2021 em 17:35
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    Parabéns Tiago, contente que ainda haja pessoas como você e João Amoedo, capazes de colocar valores morais a frente de conveniências e interesses pessoais, essa pandemia mostrou o quanto isso é artigo raro neste país.

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  • 4 de outubro de 2021 em 16:11
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    Parabéns colega Tiago, pela franqueza e pelo posicionamento. O Partido Novo passa por uma crise de identidade, sobretudo por aqueles que acreditam que fazer o certo – mas não importa como – é menos prejudicial do que seguir à risca e com respeito as regras impostas. A integridade do Partido foi colocada em xeque, tendo em vista que diversos mandatários (ou somente um?) se colocaram acima das bases fundadoras do Partido Novo, por capricho ou apego ao poder.

    O Novo, apesar de caminhar no cenário político brasileiro a passos de recém-nascido, já demonstra que tem atitude e pessoas que respeitam as regras, com integridade, transparência e objetivos claros, sem encurtar caminhos ou dar passos maiores do que a perna pode alcançar.

    Vamos seguir na luta pelo Partido Novo, e acima de tudo, para a divulgação das ideias liberais.

    Um abraço!

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