O Conservadorismo e a Política

O conservadorismo, ou uma atitude conservadora, antes de ser uma expressão direta na política, começa por ser uma atitude filosófica, ou como explica Michael Oakeshott em seu livro “Ser Conservador” (1956), “ser conservador significa uma inclinação a pensar e a comportar-se de determinada forma; é preferir certas formas de conduta e certas condições das circunstâncias humanas a outras; é dispor-se a tomar determinadas decisões”. “… é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica”.

João Pereira Coutinho, em seu livro “As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e a Reacionários” (2014) trás um pensamento intrigante ao afirmar que “todos somos conservadores. Pelo menos em relação ao que estimamos. Família, amores, amigos, lugares, livros, memórias”. De fato, quando se ama algo, o instinto natural é o de desfrutar e conservar o objeto do amor. É a consciência de que se tem algo de valor a perder. E porque aprendeu a dar valor as coisas, o indivíduo adquire o cuidado e a prudência necessária na tomada de suas decisões.

O conservador entende que sociedades são formadas pela relação entre indivíduos que cooperam socialmente e que as esperadas situações de conflito são superadas através do reconhecimento de direitos naturais inalienáveis à pessoa humana e de deveres mútuos. O indivíduo não conquista apenas a sua própria liberdade, que lhes garante a autoconsciência, mas um sentido do próprio valor e do valor dos demais. Este processo constrói vínculos afetivos, instituições mantenedoras da lei, do ensino e da política. A compreensão que uma sociedade tem uma história própria e que foi construída de baixo para cima, não imposta por uma autoridade externa ou pela coerção, dá ao conservador o real valor das associações que foram construídas, suas regras, ocupações, cerimônias e hierarquias. Qualquer alteração que se faça necessária tem que ser antecedida por uma profunda ponderação.

É justamente a partir desta disposição ou posição filosófica que podemos chegar ao conservadorismo como política. De outra forma, uma pessoa que acredita ser conservadora, mas sem uma dimensão filosófica do que é o conservadorismo, pode chegar a situações caricaturais de se achar conservadora simplesmente por acreditar que é importante preservar a ordem e a segurança que um dia pretensamente experimentaram no passado. No fundo é a politica da cartilha: “sou conservador porque acredito, nisso, nisso, nisso, nisso e naquilo”.

Mas se ao contrário, uma pessoa começar com uma atitude filosófica perante a realidade do conhecimento humano, partindo do pressuposto que os homens são imperfeitos, sobretudo com uma capacidade limitada para reconstruir uma sociedade, teremos implicações imediatas na forma como essa pessoa olha para as questões políticas. É esperado uma atuação distinta daquela com uma concepção muito otimista do que é o ser humano e de sua capacidade racional de atuar na política.

É exatamente por isso que aquele com um temperamento conservador é muitas vezes acusado de ser imobilista, de ser uma pessoa que, diante de uma situação de escolha, tem uma espécie de prudência paralisante. Mas, de fato, não é isso.

O conservador tem por hábito fazer uma pergunta prévia quando se discute política. Para um progressista, a pergunta fundamental é: por que não? Ou seja, por que não fazer isso, por que não fazer aquilo, por que não tentar isso? Uma pessoa com temperamento conservador tenderá dizer o contrário: mas por que sim? Por que é que eu devo fazer isso? Por que é que eu devo fazer aquilo? Isto é, o ônus da prova está normalmente naquilo que propõe a mudança e não naquilo que se pretende e que merece ser conservado.

Portanto, um conservador político genuíno é alguém que começa com a premissa de que ninguém é perfeito, e que essa imperfeição recomenda alguma prudência na forma como nós lidamos com a vida de seres humanos. E política é isso: lidar e interferir com a vida de milhões de seres humanos. Toda vez que vamos mexer com a vida de tantos, precisamos ponderar para saber se somos racionalmente capazes de conduzir a sociedade rumo a um ideal imaginário de perfeição, especialmente se ainda não testados, e de qual efeito terá sobre a sociedade qualquer uma de nossas atitudes neste sentido.

Nós vivemos numa sociedade que cada vez mais trata a política como meramente ideológica. Isto significa que quando você fala com alguém que tem uma posição meramente ideológica, essa pessoa tem sempre uma solução para tudo, independentemente das circunstâncias em que ela se encontra.

Se, por exemplo, você falar com um liberal, ele terá sempre como resposta imediata para os problemas de uma sociedade um acréscimo de liberdade (liberdade individual, liberdade de mercado, liberdade disso ou liberdade daquilo).

Se você falar com um socialista, ele de igual modo terá sempre uma resposta pronta, a saber, mais igualdade. Isto é, uma sociedade será tão mais desejável quanto mais igualitária esta sociedade for.

Uma política ideológica é como uma consulta médica onde a prescrição está pronta sobre a mesa antes mesmo do médico ter lhe examinado e saber qual seu diagnóstico. Em situações normais, quando confrontados em uma situação como esta, o mais prudente a fazer seria fugir do consultório.

Para o conservador, é muito mais racional, no campo político, você defender a liberdade, a igualdade, a justiça, a ordem ou o que quer que seja, partindo de uma análise prévia das circunstâncias dentro da realidade.

Podem haver situações, sobretudo em sociedades em que haja diferenças acentuadas de riqueza, que podem ser combustível para situações potencialmente revolucionárias. Talvez nestas sociedades, a promoção inicial de igualdade seja o valor mais importante para tal circunstância.

Podem haver situações em que a liberdade seja o valor mais importante. Numa sociedade que se encontra de tal forma estatizada, é desejável que essa sociedade se liberalize e que promova certas liberdades.

Portanto, sempre causará uma certa incompreensão a um conservador, uma pessoa que tenha uma certa tendência liberal ter sempre uma reposta pronta para tudo, independentemente das exigências da própria situação. É uma resposta dogmática, sem qualquer ponderação.

O conservadorismo é uma ideologia posicional, ou situacional, porque tende a aconselhar uma solução de acordo com a situação em que se encontra o sujeito político. E neste sentido, não é possível levar a sério uma política que seja puramente ideológica, porque essa política é quase sempre uma falsificação da realidade.

O leitor já deve ter percebido que uma palavra tão ligada ao conservadorismo ainda não foi mencionada: a tradição. Uma filosofia conservadora tenderá a preferir situações, soluções tradicionais, não porque elas sejam tradicionais ou antigas (isto é coisa para antiquários), mas simplesmente porque elas foram funcionando ao longo do tempo. A questão está em saber o que é que foi funcionando ao longo do tempo; e se algo funcionou, cria-se uma presunção favorável a manutenção daquilo que foi sobrevivendo ao longo do tempo, e que mostre alguma utilidade e benignidade para a sociedade. No limite, podemos dizer que a escravatura era uma tradição útil, mas não era uma tradição benigna. Ou seja, não era uma tradição que respeitava a dignidade da natureza humana, e neste sentido não há nenhum motivo para se conservar tal tradição.

A posição conservadora tenderá olhar para trás em busca de tradições que merecem ser preservadas, mas por outro lado reformar aquelas tradições que não funcionam adequadamente. A única forma de se garantir a sobrevivência de uma sociedade passa precisamente por atividades de reformas quando esta sociedade precisa ser reformada.

O principal adversário de um conservador tende a ser todo tipo de pensamento radical. O pensamento radical se define como a pretensão de se transformar radicalmente o presente rumo ao futuro (que nunca acontecerá), como acontece com os revolucionários, ou ao passado (que nunca aconteceu), como acontece com os reacionários (que não são mais do que revolucionários do avesso). Tanto os reacionários quanto os revolucionários são dois tipos de pensadores utópicos. Não pensam de acordo com a realidade política. Política não é fantasiar. Fantasiar, em si, é uma grande arte que funciona na literatura, nas artes, na música, mas não funciona na política.

Outro adversário ao pensamento conservador é um imobilista. O imobilista acredita que é possível manter a sociedade em estado de paralisia. O conservador, pelo contrário, está particularmente atento a todo tipo de mudança que se faz necessária.

O conservador acredita que quando estas mudanças necessárias numa sociedade são constantemente ignoradas, abre-se um caminho para radicais revolucionários. Todas as revoluções que conhecemos, a começar pela francesa, só ocorreram porque a elite aristocrática fracassou em promover as mudanças que aquela sociedade necessitava. Portanto, o caminho mais imediato para existir qualquer mudança radical, quer seja na política ou até mesmo dentro de sua casa, quer seja revolucionária ou reacionária, é precisamente quando as elites se negam ou fracassam em efetuar mudanças que a sociedade precisa.

Se um conservador enxerga como pior cenário político possível o reacionarismo ou uma revolução, ele tem que ser o primeiro interessado em defender as mudanças necessárias, não com base em ideologias fixas, mas de acordo com as necessidades reais de cada sociedade.

Se a elite política não tem a capacidade de reformar um país, este país vai acabar por reformar esta elite política, não necessariamente para melhor, como temos visto acontecer neste exato momento no Brasil.

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