O PT e a Lava-Jato

Um dos problemas, senão o maior, do PT com a Operação Lava-Jato e com o juiz Sérgio Moro, não é de ordem jurídica, legal. É antes um conflito de marketing e de propriedade. Até hoje o PT no Brasil se julgava, ou pelo menos assim se autopromovia, como o proprietário da justiça em todos os níveis, da justiça social à correção ética e moral de um partido que era “diferente” dos outros, leia-se melhor e mais honesto, mais justo, que os demais.

Sabemos obviamente que essa premissa é falsa como uma nota de três reais e cinquenta centavos, uma vez que não há partido algum que seja proprietário de valores humanos universais, nem podendo se intitular guardião ou administrador destes valores, no máximo em seu estatuto pode – e deve – se inspirar neles. Para salvaguardar e honrar estes valores há a Constituição brasileira e o Direito, o Código Penal, e todas as instâncias legais.

Critique-se como bem entender, mas a Lava-Jato não é uma operação rápida, leviana ou descuidada. Foi acusada de ideológica, mas prendeu e condenou à esquerda e à direita, elementos criminosos com ou sem partido. Ela tem, no seu conjunto, uma extensa fase de investigações, ainda em andamento e levada a cabo com grande diligência e eficiência pela Polícia Federal, posteriormente desembocando nas denúncias oferecidas por promotores públicos idôneos após milhares de horas de estudo e investigação criteriosa, e culminando nas primeiras prisões e condenações, todas elas com grandes evidências probatórias. Os réus que foram presos e condenados, apesar de defendidos por alguns dos melhores e mais bem pagos advogados do Brasil, foram condenados COM PROVAS bem documentadas, a despeito de uma grande e orquestrada contrainformação, que procura mostrá-los como vítimas de um sistema ditatorial imposto pelo que um dos réus ainda à solta ironicamente chamou de “A República de Curitiba”.

O povo brasileiro sonhou, por alguns poucos anos, que a Justiça não tinha proprietário, e sentiu o alento de uma forma de justiça que andava esquecida, aquela vinda dos mecanismos constitucionais, que são propriedade da Nação e do Estado, não de um partido qualquer. A Justiça exercida por quem de direito é que foi subtraída ao PT, que se sentia no papel e no direito de ser seu proprietário. Perdeu assim o partido uma importante peça de seu marketing eleitoral, coisa que não perdoa até agora. Esta é uma das razões mais importantes para o ódio do PT à Lava-Jato, ter-lhe roubado aquilo que nunca possuiu.

AUTOR

Marco Aurélio Crespo Albuquerque

Psicanalista; Membro Titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre

One thought on “O PT e a Lava-Jato

  • 25 de janeiro de 2022 em 19:45
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    Excelente texto, que faz uma análise lúcida, clara e desapaixonada da situação PT/Lava Jato.

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