A LINHA E O CÍRCULO

Há um tipo de pensamento que se chama de circular, onde as ideias andam em círculos e não saem do mesmo lugar. Ele é pouco imaginativo, repetitivo, e torna-se aborrecido porque o assunto é sempre o mesmo, a ambivalência é permanente e jamais resolvida. É o pensamento típico dos obsessivos, “e agora, o que eu faço? Isso ou aquilo?”. Jamais dê duas opções a um obsessivo! Também é o dos fanáticos, que jamais se afastam de suas hipóteses explicativas, mesmo quando se provam fracassadas sempre voltam a elas. A narrativa jamais provada da luta de classes como produtora de todos os males do mundo, sustentada pela esquerda em sua retórica centenária, me parece um exemplo dessa circularidade.

Há um outro tipo de pensamento, diferente do circular, mas tão pobre em imaginação quanto ele, o pensamento linear. Ele é reto, sem nuances, sem exceções e, ao contrário do pensamento circular, sem dúvidas ou ambivalências, cheio de certezas. É o pensamento típico dos paranoicos, “a verdade está do meu lado, se você não pensa como eu, então está contra mim”.
Esses são os tipos de pensamento que tem predominado nas redes sociais e nas discussões em geral. Você votará em Lula? Então você é mentiroso, ladrão ou gosta de quem rouba. Outras razões não são sequer consideradas. Você votará em Bolsonaro? Então você é antidemocrático, homofóbico e a favor da tortura, sem outras possibilidades. Você vai anular o voto?

Você é um covarde que não toma partido nessa batalha épica entre o bem e o mal. Particularmente, eu acho que com esses dois seria uma batalha épica entre o mal e o mal, mas semanticamente não cai bem, a luta entre o bem e o mal pega melhor, não é?

É o tipo de pensamento repleto de elementos que não servem para pensar com a profundidade ou riqueza de significados necessária. Porque pensar é uma atividade mais sofisticada, precisa considerar todos os ângulos de uma questão, sem desprezar nenhum, até achar uma compreensão ou solução minimamente satisfatória, para o momento. Pode nem ser a melhor, pode ser temporária ou definitiva, isso só o tempo dirá, mas o benefício da dúvida é saudável e permitido nesse estado de mente mais aberto.

Assim como é aceito mudar de ideia, reconsiderar, ouvir e levar em conta o contraditório como tendo possibilidade de estar correto, até que seja refutado. Não descartado a priori, desqualificado porque vem “do outro lado”. Esse pensamento é científico e pluralista, nem linha nem círculo. Esse é o pensamento que Sérgio Moro pode e precisará introduzir no debate político, escapando das armadilhas da polarização, que só interessa aos dois favoritos de agora. De hoje até o dia da votação imagino que as certezas aumentarão exponencialmente, a paranoia tóxica atingirá seu ápice e os que não se alinharem serão excomungados e chamados de isentões.

Não tenho bola de cristal para antecipar quem irá vencer, mas da eleição em diante precisaremos, aos poucos, recuperar a capacidade de pensar com mais clareza e ciência, porque haverá muito o que fazer daí em diante. Se um daqueles dois citados antes vencer, a ética e a moral regredirão pelo menos cinquenta anos, mas o Brasil não irá acabar em 2022, ao contrário das previsões mais histéricas ou catastróficas. Mas, para termos um grau de certeza maior que isso não ocorrerá, o voto terá que ser em Moro, a tesoura que agora temos em mãos para cortar a linha e o círculo.

AUTOR

Marco Aurélio Crespo Albuquerque

Psicanalista; Membro Titular da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre

One thought on “A LINHA E O CÍRCULO

  • 2 de fevereiro de 2022 em 16:22
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    Excelente texto que propõe sairmos da dicotomia burra que nos prende aos polos nefastos de Lula/Bolsonaro e nos faz refletir que existe vida para além do obscurantismo que nos rodeia.

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