Mamãe Falei demais!

O recente episódio envolvendo o vazamento de áudios do Deputado Estadual por São Paulo, Arthur Do Val, conhecido como “MamãeFalei “, que também era pré-candidato ao governo daquele estado pelo Podemos, expõe não somente a pequenez de sua pessoa, mas uma chaga aberta e supurada, em nossa sociedade.

Este tipo de ferida moral nem sempre é evidente, mas episódios infelizes como este tem o condão de evidenciá-las. E se faz mister uma reflexão sobre o assunto.
Vamos aos fatos: Do Val deslocou-se, junto de seu colega de Movimento Brasil Livre (MBL), Renan Santos, até a Ucrânia, nação democrática e soberana, que há pouco mais de uma semana teve suas fronteiras invadidas pela Rússia, no pior conflito bélico de nosso século. O objetivo alegado para a viagem era louvável: prestar apoio, ajuda e solidariedade aos ucranianos.

O conflito é tão grave, que milhares de pessoas estão abandonando seus lares para salvar suas vidas, e de seus filhos e entes queridos. A imensa maioria é de mulheres e crianças, uma vez que os homens precisam ficar e lutar pelo seu país. Imagine, então, que você está dando adeus ao seu namorado, marido, irmão, pai, amigo, sem saber se vai voltar a vê-los, e segue sem rumo, em busca de auxílio humanitário. Caro leitor, se você não se compadece com isso, tem sérios problemas psicológicos e precisa de ajuda. Pois bem. O já citado Deputado Do Val, no áudio vazado num grupo de whatsapp entre “amigos”, coloca, entre outros disparates, que:
● Renan Santos faz, anualmente, o que Do Val chamou de “tour de blonde”, ou seja, viaja para fazer turismo sexual com mulheres loiras do leste europeu e desenvolveu “técnicas para isso”.
● As mulheres do leste europeu, as quais ele supostamente “foi ajudar” são “fáceis porque são pobres”.
● Objetifica as mulheres na fila de refugiados. E as classifica pela beleza física, comparando-as às paulistas.
● Objetifica as policiais em serviço.

Muitos podem alegar que estas falas são comuns entre homens em rodas de amigos. Mas não se deixe enganar assim tão facilmente.

A gravidade dos fatos começa por Do Val ser uma figura pública, um servidor, e um político que tinha a pretensão de alçar voos mais altos. Além de ser um influenciador digital, e uma das grandes lideranças do MBL, movimento que mobiliza e forma dezenas de jovens brasileiros que seguem o exemplo dos seus quatro personagens principais, um dos quais é Arthur. Que tipo de mensagem receberão estes jovens?

Que é correto objetificar alguém? Você sabe o que é objetificar? A definição clássica diz que “consiste em analisar um indivíduo a nível de objeto, sem considerar seus aspectos emocionais e psicológicos”. Portanto, ao objetificar um corpo feminino, estamos nos referindo à banalização da imagem das mulheres, ou seja, sua aparência importa mais que todos os outros aspectos que as definem enquanto seres humanos.

Infinitamente mais grave se torna este fato, quando trata-se de pessoas em grande vulnerabilidade social, como refugiadas de guerra. E expressões: “são fáceis porque são pobres” denotam uma ausência de empatia e de respeito pela dor do outro que deixam sérias dúvidas sobre o caráter do Deputado, e do seu senso de moral, valores e princípios.
Vamos aceitar suas “desculpas” passivamente? Elas são suficientes para a gravidade do fato?

Ao longo dos séculos, nós, mulheres, fomos vistas como inferiores e submissas. A luta pela igualdade entre os gêneros está apenas no início. Em vários países, para ficar num exemplo curto, mulheres não tem sequer direitos civis.

Falas deploráveis como as de Arthur Do Val fazem com que nossas batalhas diárias pela redução da desigualdade retrocedam vários passos.

Fica a reflexão: em que mundo queremos viver? Essa é uma pergunta que mulheres e homens conscientes devem se fazer. Queremos um mundo onde haja beleza, não só a que se aprecia com os sentidos, mas a que se percebe com o coração aberto e a mente lúcida?
Queremos uma civilização equilibrada, baseada em respeito entre nós, inclusiva e igualitária, sem discriminação de gênero, raça, classe, idade, ou qualquer outra classificação que nos separe? Queremos um mundo amável, onde impere paz, empatia, decência, verdade e compaixão? Então, fatos como a fala de Do Val não podem passar impunemente, nem ser jogados para baixo do tapete. É hora de enxergar e tratar a ferida exposta.

O mundo a que aspiramos, você e eu, não é fantasia! É um projeto, e juntos todos nós que o buscamos, podemos conseguir. Mas não será sem dificuldades, e nem sem entrar firmemente na batalha daquilo que para nós é tão caro.

Ana Paula Pinho

Mestre e Doutora em Neurociências.

4 thoughts on “Mamãe Falei demais!

  • 5 de março de 2022 em 21:41
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    Parabéns Ana, é isso mesmo.

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  • 6 de março de 2022 em 09:48
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    Excelente artigo Ana! Fica claro o caráter desta pessoa. Mais claro ainda a hipocrisia dos que publicamente fazem um discurso “correto”, mas seus valores não os sustentam depois de eleitos. Por mais integridade !!!!!!

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  • 6 de março de 2022 em 12:52
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    Meus cumprimentos a todos que eventualmente podem estar lendo esse comentário.

    É provável que quem se interessa pela leitura dos artigos dessa plataforma concorda com as ideias postadas aqui, por isso, informo que o meu comentário pretende ir na contramão da ideia principal desse artigo.
    Compreendo que isso pode ser considerado por alguns como “passar pano”, já que é bastante comum que quando as pessoas têm “plena certeza” de suas ideias elas não entendam que possa existir margem para o contraditório.

    Após essa introdução, começo o meu comentário dizendo que, de forma geral, repudio o conteúdo do áudios vazados do deputado Arthur Do Val.
    Entendo que um homem na posição que ele se encontra, e com pretenções de concorrer a cargos eletivos mais elevados, não deveria manter conversas, mesmo na esfera privada, com linguajar de “botequim”, especialmente quando o assunto da conversa são outras pessoas, nesse caso mulheres, algumas em situação de refugiadas.

    Feitas as colocações acima, parto para a análise da situação como um todo e do texto do artigo.

    O artigo começa afirmando que as falas do deputado expõem “a pequenez de sua pessoa”, ora, alguém acredita ser possível avaliar todo o caráter de uma pessoa baseado em um único evento? Se assim for, creio que pouquíssimas pessoas estariam qualificadas para ocupar qualquer cargo na sociedade, incluindo eu, e incluindo a própria pessoa que escreveu o artigo. A diferença entre nós e o Arthur é que os nossos erros do passado distante ou recente não vieram a público. A menos, é claro, que estejamos aqui diante de pessoas plenamente iluminadas, que já transcenderam a condição humana.

    Ainda sobre o caráter de Arthur Do Val, nessa altura dos fatos, haveria alguma pessoa que lembre do histórico de vida de Arthur?
    Eu lembro! Ele era um cara comum que se cansou dos diversos abusos cometidos por grupos sociais, organizações, partidos e governos e resolveu sair às ruas com uma câmera na mão para denunciar os fatos. Nesse contexto, ele foi ameaçado, agredido e processado diversas vezes, mas nem por isso esmoreceu na luta pelo que acreditava, que diga-se de passagem, deveria ser a luta de diversos cidadãos brasileiros, que também se indignam com a situação do país, mas não tem coragem de sair de casa e enfretar os problemas de frente. Por isso, é com perplexidade que eu percebo o quão rápido desaparece todo o trabalho de uma pessoa depois que ela comete UM erro que vem a público.

    Sobre a situação das pessoas no conflito, sim, é uma situação precária, lastimável, que entristece qualquer pessoa que possua um mínimo de empatia. Porém, eu desafio alguém, em qualquer situação, a ficar 24 horas em um único dia portando o mesmo sentimento sobre alguma situação. A tendência da mente humana é buscar momentos de descontração, mesmo em cenários caóticos. Nos vídeos do Arthur, e mesmo em outros vídeos de refugiados Ucrânianos, é possível ver as pessoas sorrindo, e em alguns momentos até brincando umas com as outras. Mas, ao que parece, do Arthur é esperada austeridade ilimitada.

    Vamos então para a parte mais delicada, o conteúdo dos áudios. Sim, as falas são comuns entre homens em rodas de amigos. E sim, o seu pai, o seu irmão e o seu namorado provavelmente já tiveram essa postura entre os amigos deles alguma vez na vida. Mesmo assim, você mulher foi filha, irmã ou namorada deles, e nem por isso eles tiveram comportamentos deploráveis ao longo de suas vidas. Dessa forma, me parece exagerada a preocupação com o exemplo que as ações de Arthur podem representar para outras pessoas. Os homens já tem determinadas posturas entre eles, ninguém precisa ensinar. E que fique claro mais uma vez, não estou justificando essas posturas, apenas dizendo que elas são muito comuns na sociedade, e Arthur não deveria ser visto como um ser completamente apartado dessa sociedade, que muitas vezes é machista sim, embora isso seja errado.

    Entrando ainda mais fundo no conteúdo, é curioso, mas parece que foi só nessa última semana que a sociedade brasileira descobriu que a “cultura da balada” existe, mesmo que isso circule há tanto tempo em cada música de sertanejo universitário, forró, funk e etc. Se existem tantas músicas sobre isso, há de se supor que as pessoas conversem sobre isso entre elas, ou estou enganado? Mais algumas perguntas: Só homens falam sobre isso? Só homens tem interesses BEM específicos? Só homens escolhem locais que sejam mais favoráveis para eles? Se a resposta foi “não” para essas perguntas, sugiro que você mulher critique fortemente sua amiga na próxima vez que ela dispensar um cara que não era alto, ou forte, ou bonito, ou rico o bastante para os padrões dela. Me pareceu, portanto, que Arthur estava compartilhando informações que poderiam ser do interesse dos seus amigos, que eventualmente saem para “pegar mulher”, mesmo que esse termo hoje traga horror para a sociedade castrada em que vivemos.

    Falando agora sobre o contexto social. De fato, a sociedade tem muito que evoluir ainda, inclusive no respeito que deve ser dado a todas as mulheres. Esse é um problema em aberto, que precisa ser tratado com atenção e cuidado por todos nós. Contudo, a histeria causada pelo vazamento desses áudios faz parecer para mim que esse é o maior desafio que enfrentamos no país no momento. Sendo que nos últimos dois anos os brasileiros tiveram que enfrentar pandemia com milhares de mortos, roubo escancarado de dinheiro público, aparelhamento pesado das instituições, forte insegurança jurídca, grande elevação de preços, e tantos outros problemas. E sabem quem manteve uma posição pública e firme sobre todos esses assuntos? Arthur Do Val. E no momento que esse cara comete um deslize, estão diversas pessoas dispostas a esquecer tudo que ele fez e apedrejá-lo.

    Eu também aspiro um mundo melhor. Mas eu não acho que seja abandonando pessoas que lutaram ao nosso lado que vamos conquistar isso.
    Arthur errou sim. Mas a vida dele não se resume a esse único evento. Nem a nossa.

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  • 7 de março de 2022 em 16:13
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    Os 250 mil reais ajudaram muita gente, tenho certeza que as mulheres de la estao imensamente agradecidas.. mas mas para alguns brasileiros isso não importa, o importante mesmo foram as falas ruins.. lamentavel como pensa essa parte do nosso povo.

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