Um país vendendo a alma ao diabo (edição 2022)


Vender a alma é colocar a melhor parte de si a serviço do mal. É condenar-se ao inferno futuro em troca de uma bonança passageira. É sacrificar seus valores e princípios por uma conveniência do momento.

E o diabo, ao propor o pacto, não é um monstro vociferando profanidades. Pelo contrário, ele aparece como um ser patético ou simpático e diz agir em seus interesses, oferecendo aquilo que você mais deseja, por um preço aparentemente irrisório.

De eleição em eleição, o Brasil vende sua alma a um demônio diferente. Votamos mal e pelos motivos errados, mas acho que nada me dá mais desesperança no futuro do país do que ver gente supostamente esclarecida vendendo a própria alma por desespero.

Para quem ler este artigo no futuro, explico: tudo indica que Lula se elegerá presidente. Acredito que a vitória se dará em segundo turno, mas não é impossível que ocorra no primeiro.

Há mais ou menos uns 20% a 28% do eleitorado votando em Lula por convicção. Creem que ele é o melhor candidato. Não é a essas pessoas que dirijo a crítica. É do jogo democrático cada um julgar as qualidade dos candidatos de acordo com sua percepção.

O que realmente me desmoraliza, tira-me a esperança, é ver gente que acredita em candidatos melhores e valores maiores vender suas convicções por puro medo.

A eleição não tem dois turnos à toa. No primeiro, debatem-se as ideias, e os pesos dados a elas se refletem no eleitorado. O percentual de votos de um candidato “perdedor” reflete anseios do eleitor, por isso faz uma tremenda diferença perder com 2% ou com 8% dos votos. Os candidatos que vão ao segundo turno precisam lutar para conquistar esses votos, e isso significa propor alianças ou fazer compromissos com aquelas ideias.

Se você pula a primeira etapa, significa que a fatídica escolha pelo “menos pior” não terá essa adaptação de ideias. Com o desespero, a população, incentivada pelo lulismo, está literalmente desistindo de seus anseios e esperanças e entregando o poder a alguém sem pedir-lhe concessões ou compromissos. Lula não precisa ceder em nada, prometer nada, adaptar-se em nada.

Aqueles candidatos que perderiam com altos percentuais de votos estão sendo esvaziados do poder de moderar a disputa do segundo turno. Isso significa que, ganhando no primeiro ou segundo turno, Lula (ou pior ainda, Jair Bolsonaro, se o gambito não funcionar), não precisará baixar a bola a ninguém, porque os percentuais dos demais candidatos já foram esvaziados antecipadamente.

Esse desespero não se justifica. A questão real é muito simples: se a maioria da população não quer Bolsonaro, deixará isso bem claro de qualquer maneira no segundo turno, não há necessidade nenhuma de adiantar o voto. Se quer o bolsonarismo, então Lula perderá nos dois turnos. Nas duas hipóteses, o sacrifício será em vão.

Vender os próprios princípios por medo é um pacto com o diabo.

“Por favor”, gritam, “faremos qualquer coisa, aceitamos qualquer condição, mas salve-nos”.

“Muito bem, salvá-los-ei de seu inimigo”, diz o diabo. “Só peço-lhes o voto, coisa pouca, um esforço mínimo. Veem como sou generoso?”

É compreensível que as massas ajam por instinto. O mais desalentador dessa situação, contudo, é que intelectuais e influenciadores também estão se lançando nessa loucura. Quando nossos formadores de opinião, aqueles que deveriam estar instruindo as massas, são os primeiros a descartarem princípios e razão, o que esperar do futuro desse país?

Pois bem, as pessoas terão o que querem: eu acredito que Lula vencerá, mas não por causa do voto desesperado. Ele venceria de qualquer maneira, o voto anti-Bolsonaro seria dele naturalmente. O único resultado objetivo da covardia será dar ainda mais poder a ele.

Bolsonaro vai perder. E depois? Alguém está pensando no depois? Alguém está exigindo alguma garantia, algum compromisso do futuro governo?

“Ah, mas vamos lutar se ele sair do rumo”. Vão mesmo? Bolsonaro (ou “o fascismo”) sempre vai estar lá como um bicho-papão a ser usado contra a dissidência. Você pode apostar que ouvirá muitos argumentos do tipo “não critique o governo, ou Bolsonaro vai voltar na próxima eleição”, “apoie o governo, senão o fascismo vai ficar forte”, “essa oposição de vocês só está fazendo o jogo da direita”.

Quando enfim se der conta, o eleitor desesperado vai perceber o quão barato vendeu seus princípios, e o quão alto será o preço a pagar por isso.


Um adendo

Este texto lhe parece familiar? Talvez seja, visto que o escrevi também em 2018. Apenas troquei os nomes.

Os mesmos erros cometidos em 2018 se repetem em 2022. A mesma ânsia de votar “contra” alguma coisa. O mesmo ímpeto de assinar um cheque em branco pela vitória. As mesmas táticas de destruir candidatos minoritários e o bom debate em nome do medo. A mesma tática suicida de eleger um demônio para combater outro.

O Brasil continua o mesmo. Nossos intelectuais e influenciadores seguem tão cegos, surdos e burros quanto antes. Nosso bom senso permanece atrofiado e ignorado.

De demônio em demônio, nosso país permanece sendo um inferno.

E ainda carregamos o diabo nas costas

Tiago Moreira

Contador de histórias, autor de "Zé Calabros na Terra dos Cornos". Valorizo liberdade de expressão, raciocínio lógico, racionalidade, honestidade e ciência.

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